Votos (de uma historiadora) para o ano novo

Que neste ano que está chegando nós fiquemos do lado certo da História.

Que percamos o medo e o asco de palavras e/ou expressões como “meritocracia”, “privilégio(s)”, “feminismo”, “politicamente correto” etc. Que tenhamos sabedoria e humildade para buscar respostas para aquilo que não compreendemos.

Que seja abolido do nosso vocabulário a ideia de “racismo reverso”. Que tenhamos paciência, sim, mas nunca conivência com aqueles que ainda acreditam nisso.

Que possamos aprender a dizer “desculpe, eu estava errado(a), por favor, me explique porque isso lhe incomoda”. E, mais importante, que estejamos dispostos a mudar de opinião, mesmo que seja uma opinião com o qual estamos confortáveis.

Que possamos entender que ser privilegiado(a) não é o mesmo que ser sortudo(a). [Obrigada, Sense8, por essa aí!]

Que olhemos ao nosso redor, dentro do ambiente de trabalho, no grupo de amigos, entre o pessoal da faculdade, em nosso círculo íntimo, e nos perguntemos por que há tão poucos (ou nenhum) negros, pardos, mulheres, pessoas trans, gays, lésbicas, pessoas de outras religiões etc. E que nos indignemos (e muito) quando uma das respostas for: “ah, agora tem de ter cotas para amigos?”.

Que não nos calemos quando presenciarmos uma injustiça sendo cometida, mesmo que tenhamos cometido aquela mesma injustiça um dia. Que tenhamos coragem para sermos melhores do que fomos.

Que repensemos os papeis que a sociedade procura nos impor. Mulheres (cis, trans, enfim, todos os tipos de mulheres), cortem o cabelo curto, comam o segundo pedaço de pizza, digam não à maternidade, joguem fora as giletes ou, se preferirem, façam tudo ao contrário, mas nunca, jamais deixe te dizerem que você é menos mulher por isso. E, em especial, não permitam que digam isso da mulher ao seu lado. Homens (todos os tipos, também), vistam rosa, brinquem de boneca, façam as unhas, sejam um exemplo melhor para seus filhos. Chamem a atenção dos seus amigos que ainda não tem o seu nível de consciência ou a sua oportunidade de aprender.

Que possamos ter dúvidas e medos e coragem para buscar ajuda. Que no lugar de “tolerância”, exijamos “respeito”.

Que neste ano que está chegando nós fiquemos do lado certo da História.

Mas que, acima de tudo, lembremos disso: a História é uma construção. Durante muito tempo ela foi escrita apenas pelos vencedores e, embora isso esteja mudando nas últimas décadas, nem sempre (quase nunca) quem frequenta a Universidade, quem produz o “conhecimento”, tem real oportunidade de entender a(s) realidade(s) que procuram retratar, defender ou criticar.

Então, se você tem dúvidas de qual seja o lado certo da História, escolha o lado daqueles(as) que não tem voz ou que tem dificuldade em se fazer ouvir. Escolha aceitar que você simplesmente possa ter estado do lado errado esse tempo todo.

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